Foi um encontro histórico. Pela primeira vez, os quatro principais executivos das quatro maiores redes abertas do país se juntaram para discutir o futuro da TV, em painel na SET Expo, maior evento de tecnologia de televisão do país, que termina nesta quinta-feira (21) em São Paulo. Mais do que juntas, Globo, Record, SBT e Band demonstraram que deixaram um pouco da rivalidade de lado e estão unidas. Elas se articulam para dividir infraestrutura, como torres e antenas, para reduzir custos.
O que está unindo as quatro rivais é o projeto de TV digital 3.0, que deve consumir gastos de R$ 9 bilhões a R$ 11 bilhões, segundo Flávio Lara Resende, presidente da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Esse é o valor que deverá ser investido, ao longo de 15 anos, na troca de torres, antenas, equipamentos de produção, softwares etc. de mais de 15,7 mil estações transmissoras e retransmissoras; ou seja, todo o parque industrial de televisão do país.
E por que as emissoras se uniram para arriscar tanto dinheiro? Porque nas últimas duas décadas elas ganharam um novo inimigo comum, muito mais fortes do que elas: as big techs, principalmente Google e Meta, cujas plataformas digitais globais já atraem, no Brasil, mais verba de publicidade do que as redes de TV.
A TV 3.0 vai trazer uma série de avanços tecnológicos, como melhor qualidade de áudio e som, interatividade e a possibilidade de uma rede como a Globo transmitir um programa apenas para um único bairro. Para as emissoras de TV, é justamente essa hipersegmentação que interessa. Para elas, o maior benefício será a publicidade programática, digital, que caça usuários na internet e mostra a eles anúncios que em tese os interessam, de produtos e serviços que eles estão procurando.
Como a TV 3.0 combinará sinais abertos com banda larga e 5G, as emissoras poderão exibir anúncios diferentes para duas pessoas que assistem ao mesmo programa em televisores na mesma casa, cada uma em seu quarto. Isso vai permitir o acesso à TV aberta de pequenos anunciantes. Um supermercado de bairro, por exemplo, poderá anunciar suas ofertas no Jornal Nacional apenas para pessoas que residem na sua vizinhança.
De acordo com Paulo Marinho, diretor-presidente da Globo, com a TV 3.0 as quatro maiores redes do país compartilham “uma visão conjunta sobre o futuro do negócio” e estão tentando manter a relevância do meio em “ambiente diferente mesmo”.
“Antigamente, estávamos acostumados a competir entre nós. Hoje essa competição se ampliou, se acelerou, na busca da atenção do consumidor”, disse Marinho, referindo-se à concorrência das plataformas digitais.
O principal executivo da Globo dividiu na terça (19) o painel O Futuro da Mídia, mediado pelo jornalista Guilherme Ravache, com Daniela Beyruti, Marcus Vinicius Vieira e Claudio Luiz Giordani, respectivamente CEOs do SBT, da Record e da Band. Foi a primeira vez que os maiores chefes das quatro maiores redes participaram de um discussão de seus negócios em público.
Giordani, da Band, foi mais incisivo. Ele propôs que as rivais da TV aberta se unam para compartilhar infraestrutura da TV 3.0, como terrenos, torres e antenas. A ideia, aparentemente, agrada a todo mundo. Paulo Marinho afirmou ser viável compartilhar infraestrutura. Daniela Beyruti lembrou que as TVs abertas sempre estiveram alinhadas na necessidade de evolução da TV digital. “Desde o início, estamos trabalhando juntas”, falou.
As TVs abertas também estão juntas em outro ponto de disputa com as big techs. Todas defendem regulamentação ou autorregulamentação para as plataformas digitais. “A gente gostaria de ver o país avançando no sentido de proibir fraude e a proliferação de publicidade falsa nesses ambientes”, disse Marinho, referindo-se a anúncios que usam, sem autorização, a imagem de apresentadores de TV, por meio de inteligência artificial, para vender produtos e serviços no mínimo duvidosos, o que não acontece na mídia tradicional.
Proeminência e financiamento preocupam
Dois assuntos relacionados à TV 3.0, contudo, preocupam os CEOs da TV aberta. Um deles é o financiamento. Com as receitas em queda, as emissoras, principalmente as regionais, não têm dinheiro para trocar antenas e transmissores. O setor espera do governo linhas de financiamento com juros mais baixos.
Também na SET Expo, Wilson Wellisch, secretário de Radiodifusão do Ministério das Comunicações, disse que essa é uma discussão que tem avançado em Brasília. Segundo ele, o governo federal negocia recursos com o Banco Mundial para repassá-los aos radiodifusores por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). E o Orçamento da União deverá prever US$ 100 milhões de crédito ao setor em 2026.
O outro aspecto que tira o sono dos executivos das redes é a proeminência da TV aberta. Com a nova tecnologia, as emissoras não serão mais acessáveis como canais, numa ordem sequencial. Cada uma delas terá um aplicativo nos televisores, como já são as plataformas de streaming. Mas elas não querem ser mais um app entre centenas, pois isso derrubaria suas audiências. Querem um espaço privilegiado.
E por que as TVs abertas merecem um atalho no controle remoto? “A TV aberta é uma concessão pública. É um serviço gratuito, em conformidade com leis e regulações brasileiras, que tem obrigações com a sociedade”, responde Paulo Marinho.
Sem citar marcas, Daniela Beyruti, do SBT, contou que alguns televisores já disponíveis no mercado dificultam muito o acesso do telespectador aos canais abertos, porque ao fabricante interessa o modelo de canais Fast, em que oferece programação segmentada e fatura com publicidade programática. “Ao meu ver, eu acho que deveria ter uma imposição do governo de que todo televisor vendido no Brasil precisa ter o acesso à TV aberta”, defendeu a herdeira de Silvio Santos (1930-2024).
Assinatura de decreto é adiada
Segundo Marcus Vinicius Vieira, da Record, a proeminência da TV aberta deverá estar prevista no decreto que instituirá a TV 3.0 no país. A assinatura do decreto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a ser anunciada para ontem, mas foi adiada, causando frustração e preocupação de radiodifusores. O ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, prometeu que o decreto será assinado no próximo dia 27, em cerimônia no Palácio do Planalto.
A assinatura do decreto que institui o novo padrão de TV digital vem sendo adiada desde maio. Um dos pontos de tensão é o fato de o novo sistema contar com a camada física (modulação) do padrão da ASTC, uma instituição norte-americana. Não pegaria bem ao governo brasileiro adotar uma tecnologia dos Estados Unidos num momento em que o governo de Donald Trump sobretaxa produtos brasileiros em 50%.
Essa questão, no entanto, já teria sido superada, de acordo com fontes bem informadas. Os radiodifusores conseguiram convencer o governo de que a camada física é apenas um aspecto do novo padrão de TV digital, que também utilizará tecnologias do Japão, China e Europa. É apenas uma licença, embora muito importante, entre centenas. A assinatura do decreto teria sido adiada apenas porque o presidente Lula gostaria de “uma agenda exclusiva”.
Após o decreto, o governo prevê novas ações, como regulamentação e distribuição de canais. A Globo pretende começar a transmitir TV 3.0 em 2026. Para ter acesso a esse conteúdo, será necessário um novo televisor ou conversor, como ocorreu na transição da TV analógica para a digital, a partir de 2007.