Tensão e choro marcam primeiro dia de julgamento do caso Kiss

O primeiro dia do julgamento dos quatro réus acusados de serem os responsáveis pelo incêndio na boate Kiss, que deixou 242 mortos e mais de 600 feridos, foi marcado por momentos de tensão na quarta-feira (1º). Eles deverão se repetir ao longo das próximas duas semanas, tempo que o tribunal do júri deverá funcionar até a sentença final. 

O primeiro momento de tensão foi durante a chegada do produtor musical Luciano Bonilha, de 43 anos, por volta das 9h. Abalado ao subir as escadas do prédio do Foro Central I de Porto Alegre, o músico disse à imprensa aos gritos: “Eu não sou assassino.”

Após entrar no prédio, Bonilha passou mal e teve de ser atendido pela equipe médica do fórum. Ele chegou ao plenário minutos depois dos outros réus. “Luciano vinha enfrentando esse julgamento de uma forma muito melhor. Hoje ele passou mal, mas depois de 30, 40 minutos ele voltou ao normal”, afirmou Gustavo Nagelstein, advogado do músico. “Ele é um cumpridor de ordens, não tinha escolha naquela noite, foi determinado que ele fizesse aquilo. Ele acendeu os fogos como lhe foi mandado.”

O segundo momento ocorreu ao longo do depoimento da vítima Kátia Giane Pacheco Siqueira. A ex-funcionária disse ao juiz Orlando Faccini Neto que desmaiou e acordou depois de 21 dias em um hospital de Porto Alegre. “Eles falaram que iam tentar me desintubar de novo e que, se caso eu não resistisse, iam me deixar morrer”, contou.

O depoimento da primeira testemunha, a ex-funcionária Kátia Giane Pacheco Siqueira durou cerca de quatro horas. Ela foi questionada sobre questões técnicas sobre a estrutura da boate, lotação e sinalização do espaço no dia do incêndio. Grávida, a ex-funcionária demonstrou sinais de cansaço na última hora do depoimento. Kátia relatou ao juiz que trabalhou durante seis meses na cozinha e no bar do estabelecimento.

Ela foi a primeira testemunha ouvida pelo Tribunal do Juri e disse à promotora Lúcia Helena Callegari que espera que os quatro réus sejam condenados. “Com tudo isso que eles fizeram, tentaram matar a gente”, disse ela no plenário em afirmações à promotora Lúcia Helena Callegari. Um dos momentos mais marcantes do depoimento de Kátia foi quando o juiz perguntou à testemunha se ela havia tido algum problema físico ou psicológico decorrente do incêndio.

“Queimei 40% do corpo”, afirmou. “Minha mãe trocava o canal da televisão para não me afetar. Depois de 46 dias tive alta do hospital. Fiz cinco cirurgias de enxerto com pele de outras pessoas e com a minha própria pele. Depois comecei a fazer as cirurgias reparativas”, diz ela, que chegou a tomar morfina para amenizar a dor. Kátia se emociona ao lembrar do momento em que caiu próximo à chapelaria da boate. “Tentei sair, mas tinha muita gente empurrando. Muita gente achava que a porta do banheiro era a porta da saída. Acabei desmaiando lá dentro”, disse. “Apaguei ali e acordei 21 dias depois”, afirmou.

Após o depoimento de Kátia, a promotora Lúcia Helena Callegari considerou o depoimento longo com perguntas desnecessárias. “Estávamos com uma mulher grávida que estava cansada, ela não aguentava mais. Mas o depoimento dela foi super importante e que estão de acordo com o que estamos sustentando desde sempre: casa superlotada, não havia saída e se colocou fogo. Nunca se preocuparam com a segurança em relação a isso”, disse.

O segundo depoimento da quarta-feira foi de Kelen Leite Ferreira, que teve uma perna amputada e o corpo queimado pelas chamas.

Para esta quinta-feira (2) estão previstos cinco depoimentos de sobreviventes. Na parte da manhã, serão ouvidos Emanuel Almeida Pastl e Jéssica Montarão Rosado. Na parte da tarde, o júri interroga a testemunha de acusação Miguel Ângelo Teixeira Pedroso e, na sequência, Lucas Cauduro Peranzoni, Érico Paulus Garcia e Gustavo Cauduro Cadore.

Fonte: R7